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Inteligência emocional e psicanálise: o que Freud nos ensina sobre lidar com as emoções

Muito se fala hoje em inteligência emocional: a capacidade de reconhecer, controlar e gerir as próprias emoções. Esse conceito ganhou espaço em livros, empresas e redes sociais como uma espécie de habilidade essencial para o sucesso e o bem-estar. Mas o que a psicanálise tem a dizer sobre isso?

Embora Sigmund Freud nunca tenha usado o termo “inteligência emocional”, sua teoria oferece uma compreensão profunda — e muito atual — sobre como lidamos com nossos afetos, angústias e conflitos internos.


Inteligência Emocional X Psicanálise
Inteligência Emocional X Psicanálise

Emoções não são apenas conscientes

Para a psicanálise, nossas emoções não estão totalmente sob nosso controle. Freud nos mostra que grande parte da vida emocional é inconsciente. Isso significa que sentimentos como ansiedade, tristeza, raiva ou culpa podem surgir sem que saibamos exatamente de onde vêm.

Muitas vezes, tentamos “controlar” emoções que, na verdade, estão ligadas a conflitos antigos, desejos reprimidos ou experiências ainda não elaboradas. Nesse sentido, o problema não é sentir demais, mas não compreender o que aquele sentimento está tentando dizer.

Controle emocional ou elaboração psíquica?

A ideia mais comum de inteligência emocional está associada ao autocontrole: não explodir, não entrar em crise, manter o equilíbrio. A psicanálise propõe um deslocamento importante: mais do que controlar emoções, precisamos elaborá-las.

Elaborar significa:

  • dar nome ao que se sente;

  • tolerar emoções ambíguas (amor e ódio, desejo e culpa);

  • reconhecer repetições emocionais;

  • transformar afetos em palavras, em vez de atos ou sintomas.

Quando emoções não são elaboradas, elas tendem a retornar de outras formas: sintomas físicos, crises de ansiedade, reações desproporcionais ou relações conflituosas.

A angústia como sinal, não como inimiga

Freud compreendia a angústia não como um defeito emocional, mas como um sinal de alerta psíquico. Ela indica que algo interno está em conflito — seja uma perda, uma frustração ou uma ameaça à forma como o sujeito se organiza emocionalmente.

Silenciar a angústia sem escutá-la pode trazer alívio momentâneo, mas não resolve o conflito que a produz. Na perspectiva psicanalítica, lidar bem com as emoções inclui aprender a escutar a angústia, e não apenas combatê-la.


Emoções
Emoções

Emoções, vínculos e repetições

Nossa inteligência emocional se manifesta, sobretudo, nos vínculos. A forma como lidamos com frustrações, críticas, abandono ou dependência emocional costuma repetir padrões construídos ao longo da vida.

Na clínica psicanalítica, essas repetições aparecem na relação terapêutica por meio da transferência, revelando modos inconscientes de amar, sofrer e se defender. Ampliar a consciência desses padrões possibilita novas formas de se relacionar consigo e com o outro.

Cultura, cobrança emocional e esgotamento

Vivemos em uma cultura que exige desempenho emocional constante: ser produtivo, positivo, resiliente e emocionalmente equilibrado o tempo todo. Freud já alertava que a vida em sociedade gera um mal-estar inevitável, pois impõe renúncias e ideais difíceis de sustentar.

Nesse contexto, a ideia de inteligência emocional pode se transformar em mais uma cobrança: “não posso sofrer”, “não posso me desequilibrar”. A psicanálise vai na direção oposta, ao legitimar o sofrimento como parte da experiência humana e ao apostar na escuta como caminho de transformação.

Afinal, o que é inteligência emocional para a psicanálise?

Sob um olhar psicanalítico, podemos dizer que inteligência emocional não é dominar emoções, mas:

sustentar o próprio mundo afetivo, reconhecendo seus conflitos, limites e desejos, sem negá-los ou idealizá-los.

Esse processo não acontece por meio de técnicas rápidas, mas através do autoconhecimento, da fala e da elaboração psíquica — muitas vezes facilitada pelo processo terapêutico.

Considerações finais

A psicanálise nos ensina que não existe vida emocional sem conflito. Lidar bem com as emoções não significa viver sem dor, mas desenvolver recursos internos para compreender o que se sente e por que se sente.

Se você sente que suas emoções às vezes parecem confusas, intensas ou difíceis de administrar, talvez o caminho não seja controlá-las, mas escutá-las com mais profundidade.


Referências

FREUD, S. (1912). A dinâmica da transferência. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1915). O inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1923). O ego e o id. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1926). Inibição, sintoma e angústia. Rio de Janeiro: Imago.

FREUD, S. (1930). O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago.

SALOVEY, P.; MAYER, J. D. (1990). Emotional intelligence. Imagination, Cognition and Personality, 9(3), 185–211.

 
 
 

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